4 maio 2026
Mais do que proibir, o desafio é orientar os estudantes a utilizar a IA de forma crítica, ética e responsável, já que essas ferramentas fazem parte do cotidiano
Escrever, pensar e aprender na era da inteligência artificial (IA) é um dos grandes desafios contemporâneos da educação. Não porque a tecnologia represente uma ameaça em si, mas porque ela expõe, com muita clareza, fragilidades que já existiam no processo de aprendizagem.
A chegada de ferramentas de IA capazes de produzir textos, responder perguntas e estruturar ideias em segundos altera profundamente a forma como os estudantes se relacionam com o conhecimento. O que antes exigia tempo, esforço cognitivo e elaboração passa a ser, muitas vezes, terceirizado para uma máquina.
Nesse cenário, a escola se vê diante de um impasse: resistir, proibir ou transformar?
O desenvolvimento da habilidade de escrever
A escrita sempre foi uma das principais formas de organizar o pensamento. Escrever não é apenas registrar ideias, mas estruturá-las, testá-las, revisá-las e dar sentido a elas. Quando um estudante escreve, ele precisa selecionar informações, estabelecer relações, construir argumentos e tomar decisões linguísticas.
Escrever à mão ativa diferentes áreas do cérebro e contribui diretamente para o desenvolvimento do pensamento crítico. No entanto, quando a escrita é substituída por respostas prontas geradas por inteligência artificial, há um risco real de esvaziamento desse processo. O estudante pode até entregar um bom texto, mas sem necessariamente ter aprendido a pensar.
Esse fenômeno se conecta diretamente a um problema que já vinha sendo observado nas escolas: a crise da concentração. Professores relatam, de forma recorrente, a dificuldade crescente dos alunos em manter atenção por períodos mais longos, em se aprofundar em uma tarefa ou em sustentar um raciocínio mais complexo.
Estudos recentes apontam que o tempo médio de atenção contínua está em queda. Nas últimas duas décadas, pesquisadores descobriram que o tempo médio que as pessoas permanecem concentradas em uma única tarefa caiu de cerca de 2,5 minutos para aproximadamente 40 segundos, informa esta matéria da revista National Geographic, baseada no estudo da psicóloga e pesquisadora norte-americana Gloria Mark, professora na Universidade da Califórnia, Gloria estuda a atenção e o impacto da tecnologia no comportamento humano. Ela é autora do livro “O poder da atenção: uma forma inovadora de restaurar o equilíbrio, a felicidade e a produtividade”, no qual explica como a distração digital afeta o foco e o bem-estar.
O cérebro dos estudantes
O uso intenso de tecnologias digitais, redes sociais e consumo rápido de informação estão entre os principais responsáveis por esse cenário.
Em 2024, a expressão brain rot, que pode ser traduzida como “apodrecimento cerebral”, foi eleita a palavra do ano pela Universidade de Oxford após uma votação pública com mais de 37 mil participantes. O termo é usado para descrever o desgaste mental causado pela exposição constante a conteúdos rápidos e superficiais, como vídeos curtos em plataformas como TikTok e Instagram.
O cérebro se acostuma a estímulos constantes, recompensas imediatas e mudanças rápidas de foco. Como consequência, atividades que exigem esforço cognitivo mais prolongado, como leitura, escrita e resolução de problemas, tornam-se mais desafiadoras.
Problema e solução
Nesse contexto, a inteligência artificial pode tanto agravar quanto ajudar a enfrentar esse cenário. Quando utilizada de forma passiva, ela reforça a lógica do imediatismo. O estudante pergunta, recebe a resposta pronta e segue adiante sem aprofundamento. Isso reduz o tempo de engajamento cognitivo e enfraquece a construção do conhecimento.
Por outro lado, quando bem mediada, a tecnologia pode se tornar uma aliada potente no desenvolvimento da aprendizagem. A diferença está na forma como ela é integrada ao processo educativo.
A última TIC Educação mostrou que 7 em cada 10 estudantes brasileiros que estão no ensino médio disseram usar ferramentas de IA generativa. A pesquisa mostrou que cerca de 39% dos alunos dos anos finais do ensino fundamental disseram usar essas plataformas.
Ao mesmo tempo, professores relatam insegurança sobre como lidar com essa nova realidade, seja pela falta de formação específica, seja pela ausência de diretrizes claras. Esse descompasso entre o uso acelerado da tecnologia pelos alunos e a preparação das escolas cria um ambiente de incerteza, em que muitas decisões são tomadas de forma reativa, e não estratégica.
Não é “se”, mas “como”
A questão central, portanto, não é se os estudantes vão usar inteligência artificial, mas como eles vão usar. Ignorar ou proibir tende a ser ineficaz, porque essas ferramentas já fazem parte do cotidiano. O caminho mais consistente é educar para o uso consciente, crítico e ético da tecnologia. Isso implica ensinar os estudantes a fazer boas perguntas, a analisar as respostas recebidas, a identificar possíveis erros ou vieses e a utilizar a inteligência artificial como apoio, e não como substituição do pensamento.
Uma das mudanças mais urgentes está na forma como a escrita é proposta na escola. Se a tarefa for apenas: “escreva um texto sobre determinado tema”, a inteligência artificial consegue cumprir esse objetivo com facilidade. No entanto, se a proposta envolver reflexão pessoal, análise de contexto, conexão com experiências reais e construção de argumentos próprios, o papel do aluno se torna insubstituível.
É preciso valorizar processos, não apenas produtos. A escrita deve ser acompanhada, discutida, revisada e construída ao longo do tempo, e não apenas entregue como resultado final.
Incentivo ao pensamento crítico
Outro ponto importante é trabalhar a metacognição, ou seja, a capacidade do estudante refletir sobre o próprio processo de aprendizagem. Perguntar “como você chegou a essa resposta?”, “o que você mudou ao revisar seu texto?” ou “em que momento a tecnologia te ajudou e em que momento você pensou por conta própria?” ajudam a tornar o aprendizado mais consciente. Esse tipo de abordagem fortalece a autonomia intelectual e reduz a dependência de respostas prontas.
Para enfrentar a crise da concentração, também é necessário repensar o ambiente de aprendizagem. Isso não significa eliminar a tecnologia, mas equilibrar seu uso. Momentos de foco profundo precisam ser intencionalmente planejados, com atividades que exijam continuidade, atenção e envolvimento. Ao mesmo tempo, estratégias pedagógicas mais dinâmicas, que alternem metodologias e promovam participação ativa, ajudam a manter o engajamento da turma.
Formação continuada de professores
A formação de professores é um elemento-chave nesse processo. Muitos docentes não foram preparados para lidar com inteligência artificial em sala de aula e acabam se sentindo inseguros. Investir em formações continuadas que abordem não apenas o uso técnico dessas ferramentas, mas também suas implicações pedagógicas e éticas, é fundamental. O professor precisa se sentir confortável para mediar, questionar e orientar o uso da tecnologia, e não apenas reagir a ela.
Além disso, é essencial construir uma cultura de uso responsável da inteligência artificial dentro das escolas. Isso envolve discutir autoria, plágio, ética e responsabilidade digital.
Os estudantes precisam compreender que utilizar tecnologia não é um problema, mas que há uma diferença entre usar como apoio e usar como substituição do próprio esforço intelectual. Essa consciência não se constrói com punição, mas com diálogo e orientação.
O que é possível fazer
Outro caminho importante é diversificar as formas de avaliação. Quando a avaliação se baseia apenas em produtos finais, como textos prontos ou trabalhos escritos, torna-se mais difícil identificar o processo de aprendizagem. Avaliações que incluem etapas, registros, apresentações orais, debates e produções autorais ajudam a valorizar o percurso do estudante e tornam o uso inadequado da tecnologia menos relevante.
A escola também precisa resgatar o valor do tempo no processo de aprendizagem. Em um mundo marcado pela velocidade, aprender continua sendo um processo que exige pausa, repetição, erro e reconstrução. A escrita, nesse sentido, é uma ferramenta poderosa, justamente porque obriga o aluno a desacelerar, organizar ideias e dar forma ao pensamento. Proteger esse espaço é fundamental.
Escrever, pensar e aprender na era da IA não é sobre competir com a tecnologia, mas sobre redefinir o papel da escola. Se antes o foco estava no acesso à informação, hoje ele precisa estar na capacidade de interpretar, questionar e produzir conhecimento. A inteligência artificial pode fornecer respostas, mas não substitui a experiência humana de aprender, errar, refletir e construir sentido.
O desafio não é pequeno, mas também não é intransponível. Ele exige coragem para mudar práticas, disposição para aprender continuamente e clareza sobre o que realmente importa na educação. No centro desse processo está o desenvolvimento do pensamento. E pensar, ainda hoje, continua sendo uma das habilidades mais humanas e mais necessárias que existem.
Débora Garofalo