29 abr 2026
O uso de inteligência artificial avança aceleradamente e, de forma menos ágil, também chega à agenda educacional, evidenciando um aspecto central: quem, na prática, irá gerir o uso nas escolas? Qual o papel da gestão escolar nesse contexto?
O desafio é complexo e exige um conjunto sofisticado de competências técnicas, pedagógicas e éticas. Não se trata apenas de operar tecnologia, ainda que, mesmo nesse nível, persistam incompreensões e dilemas diante da diversidade de contextos e realidades educacionais do Brasil. O uso de IA impõe lidar com vieses, compreender impactos pedagógicos, proteger dados sensíveis e avaliar a gravidade da dependência tecnológica envolvida.
O momento atual da agenda revela uma lacuna estrutural. Os diretores em posição de liderança na gestão da escola não possuem preparo específico para decisões dessa natureza. O descompasso entre a velocidade dos avanços digitais e a capacidade dos sistemas de formar suas lideranças eleva o risco de uma modernização sem sustentação institucional e pedagógica na escola. Em outros momentos, vimos laboratórios de informática fechados, com computadores desligados e tablets empoeirados, incapazes de se integrar ao cotidiano pedagógico.
Na esteira desse debate, o MEC publicou recentemente um referencial sobre o desenvolvimento e uso responsável da inteligência artificial na educação, no qual estabelece diretrizes para o uso ético. O documento reconhece que “a inteligência artificial apresenta potencial significativo para qualificar a educação brasileira” ao ampliar o apoio ao trabalho docente, a personalização da aprendizagem e a inovação pedagógica. Ao mesmo tempo, reafirma, de forma recorrente, a necessidade de supervisão humana em processos educacionais que envolvem aplicações de IA. Supervisão sem conhecimento adequado é inócua; uma ficção regulatória.
A incorporação da educação digital e midiática aos currículos passou a ser critério para acesso a recursos adicionais do Fundeb, via Vaar (Valor Anual por Aluno), reforçando a indução da agenda nas redes de ensino. Ainda que haja avanços na conectividade, as desigualdades persistem: apenas 44,5% das escolas declararam possuir conexão adequada para uso pedagógico em sala de aula, segundo dados do MEC de julho de 2025, divulgados no Anuário da Educação Básica. Falar em inteligência artificial nas escolas sem considerar essas diferenças e sem apoiar os diretores no desenvolvimento das competências necessárias para gerir o uso nas escolas é mirar em um alvo sem condições de lançar a flecha.
O referencial do MEC dedica um capítulo ao fortalecimento das competências de gestores, das secretarias e escolas, no uso da IA. Trata-se de um apoio importante, mas ainda há pouca clareza sobre práticas efetivas e de referência em relação ao papel dos diretores. Sem isso, cresce o risco de fragmentação no uso das tecnologias, ampliação de desigualdades e impactos limitados na aprendizagem.
É preciso estabelecer protocolos de orientação aos gestores escolares, realizar escutas sobre necessidades do chão de escola, delimitar competências essenciais a serem desenvolvidas e ofertar formação e acompanhamento contínuo de qualidade.
Avanços na regulação são necessários, sem dúvida. Mas é a capacidade de gestão pedagógica na escola que sustenta transformações perenes que impactam a aprendizagem.
Fonte: Folha de São Paulo
Imagem: Estúdio DC by Freepik