(16) 3446-7008

Acesse:

Sasepp

Acesso restrito

Whatsapp
21 jul 2026

Por que o aprendizado de matemática deve começar na educação infantil?

Em entrevista ao Porvir, a Katia Smole, diretora do Instituto Reúna e especialista em matemática, argumenta que o estímulo ao pensamento matemático desde a primeira infância produz efeitos duradouros ao longo da vida e da trajetória escolar das crianças

Saber contar de cor não significa aprender matemática. O contato com o pensamento matemático estruturado também vai além do reconhecimento de padrões ou quantidades. “O consenso entre os educadores de vanguarda indica que a integração da matemática por meio de jogos de contagem, contação de histórias e dramatizações potencializa drasticamente o engajamento e o crescimento acadêmico das crianças”, destaca Katia Smole, professora de matemática e diretora do Instituto Reúna. 

Em entrevista ao Porvir, a educadora destaca que práticas como as “conversas numéricas”, que consistem em trazer conceitos geométricos, quantitativos ou espaciais para as rotinas mais simples da educação, fortalecem os aprendizados e a relação que os alunos desenvolvem com a matemática. 

Na educação infantil, ela observa que o conhecimento se torna efetivo quando as crianças interagem com situações próximas da realidade,  como jogos e brincadeiras, no chamado “brincar guiado”. 

“A neurociência cognitiva demonstra que os bebês já nascem com um senso numérico analógico, sendo biologicamente capazes de discriminar alterações em magnitudes visuais e de reagir com surpresa diante de inconsistências aritméticas simples em testes de laboratório. Isso permite vislumbrar uma trajetória de conhecimento que deveria progredir sempre”, afirma.

Leia abaixo a entrevista com a educadora: 

Porvir: O que muda no desenvolvimento de uma criança que tem contato com a matemática desde cedo?

Katia Smole: O contato precoce com os estímulos matemáticos funciona como um poderoso arquiteto da estrutura cognitiva infantil. Estudos longitudinais de longa duração trazem evidências científicas desse impacto. O aprendizado da matemática na infância estimula diretamente as chamadas funções executivas do cérebro, que englobam a memória de trabalho, o controle inibitório e a flexibilidade cognitiva

O dado mais revelador é que o desenvolvimento dessas funções, na transição da educação infantil, atua como mediador fundamental não apenas para o sucesso futuro em matemática, mas também para o bom desempenho em leitura e interpretação de texto até o final do ensino fundamental.

Isso desmistifica a ideia de que a alfabetização linguística e a matemática caminham por trilhas isoladas. Uma base sólida em numeracia emergente aos cinco anos é um dos preditores mais confiáveis do sucesso acadêmico de longo prazo, estendendo os seus benefícios até o ensino médio e superior. 

Em termos de políticas públicas e inclusão social, já se sabe que crianças de contextos socioeconômicos vulneráveis, quando expostas a uma estimulação matemática rica e intencional, conseguem mitigar as lacunas impostas pelas desigualdades, promovendo equidade e garantindo que os resultados de excelência não fiquem restritos aos grupos mais privilegiados.

Com base nas metas do PNE (Plano Nacional de Educação) para os próximos dez anos, que projeta que pelo menos 80% das crianças atinjam níveis adequados de proficiência em matemática até o 2º ano do ensino fundamental em cinco anos, surge a urgência de redefinir o papel da alfabetização matemática desde a primeira infância. Mais do que uma meta métrica, trata-se de um desafio ético e macroeconômico de reduzir em 90% as disparidades de aprendizado provocadas por marcadores sociais de gênero, raça e classe social.

Porvir: Existe uma idade certa para descobrir os números?

Katia Smole: Matemática não se descobre. Isso foi feito lá pelos nossos ancestrais. Nós temos um legado que deve ser valorizado por meio da aprendizagem. Matemática se aprende, se entende, encanta. O conhecimento matemático inicial não obedece a cronogramas rígidos ou a uma idade específica. 

A neurociência cognitiva demonstra que os bebês já nascem com um senso numérico analógico, sendo biologicamente capazes de discriminar alterações em magnitudes visuais e de reagir com surpresa diante de inconsistências aritméticas simples em testes de laboratório. Isso permite vislumbrar uma trajetória de conhecimento que deveria progredir sempre. 

O erro histórico da escola  foi achar que existe uma primazia cronológica da escrita sobre o número. É urgente abandonar a premissa ultrapassada de que as crianças precisam primeiro aprender a ler e a escrever na língua materna para só depois explorar situações matemáticas complexas. Se o aprendizado dependesse dessa ordem, anularíamos a rica bagagem que a criança traz de casa.

Porvir: E quais seriam as nuances relacionadas à idade?

Katia Smole: Há toda uma linguagem a se conhecer, 

compreender e utilizar. Entre os dois e os quatro anos, o universo numérico ganha contornos simbólicos. A criança conecta os nomes dos números às quantidades exatas e domina os princípios da contagem. 

Aos seis anos, com o ingresso no ensino fundamental, ocorre simplesmente a intensificação e a sistematização desse processo, com o sistema decimal e as operações formais.

Portanto, a alfabetização matemática deve ser estimulada de forma ininterrupta desde o berço, permitindo que a transição para a instrução formal seja consequência natural de uma experiência lúdica e contínua de leitura do mundo.

Porvir: Quais as principais dificuldades para educadores ao abordar a matemática na educação infantil? 

Katia Smole: Os desafios são de natureza sistêmica e combinam fatores estruturais com barreiras psicopedagógicas. Na base do problema encontra-se uma lacuna severa na formação inicial. A imensa maioria dos alfabetizadores provém de cursos de pedagogia que, historicamente, dedicam uma carga horária reduzida e puramente teórica à didática da matemática. Isso resulta em uma persistente falta de conhecimento de conteúdo e de práticas pedagógicas específicas para a infância. 

Essa lacuna alimenta um fenômeno nocivo: a ansiedade matemática do próprio educador. O desconforto crônico ou o trauma pessoal com a disciplina podem ser transmitidos de forma inconsciente para os alunos, perpetuando o ciclo de aversão aos números.

Porvir: Isso acontece também em relação ao currículo?

Katia Smole: Sim. Globalmente, os professores enfrentam a complexidade de implementar um currículo híbrido e inovador. O grande nó pedagógico reside em equilibrar o brincar livre com a instrução intencional de conceitos matemáticos iniciais, sob a constante pressão social e institucional por metas que muitas vezes forçam uma escolarização precoce e engessada. 

Soma-se a isso a escassez crônica de recursos nas escolas, como materiais manipuláveis de qualidade e ferramentas que permitam diferenciações pedagógicas eficazes para acolher a heterogeneidade cognitiva da sala de aula, incluindo o atendimento adequado a alunos com autismo ou discalculia.

Porvir: Como apresentar a matemática para crianças muito pequenas?

Katia Smole: A abordagem pedagógica contemporânea mais eficaz e validada internacionalmente afasta-se totalmente da memorização mecânica e foca no chamado “brincar guiado”. Nessa estratégia, o professor assume o papel de arquiteto de ambientes de aprendizagem intencionais, estruturando espaços ricos em desafios, como autênticos centros de matemática, onde as crianças investigam, jogam, experimentam e colaboram. 

O consenso entre os educadores é que integrar a matemática com jogos, contação de histórias e dramatizações potencializa o engajamento e o crescimento acadêmico .Essa prática ganha vida por meio da “conversa matemática”, que incorpora conceitos espaciais, geométricos e quantitativos às rotinas mais simples da educação infantil, como o momento da refeição ou a hora do banho. 

Para que o conhecimento seja efetivo, a criança deve primeiro manipular objetos e interagir com situações problematizadoras próximas ao cotidiano –jogos, brincadeiras, coleções – antes de ser introduzida aos símbolos gráficos e conceitos abstratos. 

Ao transformar a matemática em ferramenta útil e lúdica para resolver problemas próximos da sua realidade, como calcular quantos copos são necessários para servir os colegas, a escola deixa de tratá-la como um filtro seletivo e passa a ofertá-la como direito fundamental para a cidadania e a emancipação social.

Fonte: Porvir

Imagem: gpointstudio by Magnific