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24 abr 2026

Por que o bem-estar do professor é essencial para inclusão na sala de aula?

O equilíbrio psíquico dos educadores é determinante para o sucesso da aprendizagem de alunos neurodivergentes. Especialista alerta que, sem amparo institucional e recursos adequados, o esgotamento docente inviabiliza as práticas de acolhimento e compromete a eficácia das políticas educacionais

No ato de ensinar ou aprender, a dimensão emocional possui um peso determinante. Na educação inclusiva, esse aspecto ganha um contorno a mais. O pesquisador australiano John Hattie, autor do livro “Aprendizagem Visível”, analisou dados de 240 milhões de estudantes e concluiu: as atitudes dos professores representam um dos maiores impactos no sucesso escolar.

“Um professor com atitude sempre foi o fator mais importante”, apontou o especialista em neurociência Hernán Aldana no painel de abertura do 4º Congresso Internacional de Educação Inclusiva, promovido pela Fundação Santillana. 

Ao tratar do tema, Aldana refere-se à postura prática adotada no cotidiano. Fazendo referência à pesquisa de John Hattie, Hernán contextualiza que um outro achado é que esses professores com atitude são aqueles que acreditam ser “agentes de mudança”. 

“Guardem bem essas palavras, especialmente quando falamos de neurodiversidade: o professor com atitude, que ama o que faz, sabe que a sua atuação em sala de aula gera mudanças na regulação emocional dos alunos, na atenção, na capacidade de aprender. Ou seja, esse docente se vê como agente de mudança”, disse. 

Inclusão e emoções 

Durante sua fala, o neurocientista defendeu que a inclusão só se concretiza se o educador estiver bem, física e emocionalmente. 

Os “professores de atitude” mencionados pelo educador guardam em comum o engajamento com a própria profissão. “Eles são apaixonados. Atitude é paixão”, diz. 

“A paixão aparece no corpo, na voz, nos gestos. E isso está ligado a algo que muitas vezes é invisível: saúde mental, saúde física, bem-estar”, ressalta o educador. 

Para o especialista, esse sentimento não se restringe à estratégia pedagógica: “Os professores com atitude acreditam que o que eles fizerem em sala de aula hoje pode impactar na vida dos alunos para sempre”, pontuou.

O risco do esgotamento

Quando o educador está passando por problemas de saúde mental, esse quadro se reflete na paixão por ensinar ou no simples ato de estar na sala de aula, explica Hernán. Esse tipo de transtorno figura entre as principais causas de afastamento docente. Dados do Ministério da Previdência Social revelaram que, em 2025, o Brasil registrou mais de 65 mil licenças motivadas por questões psíquicas apenas na rede pública. 

“Precisamos de energia, muita energia, porque a sala de aula complexa e inclusiva exige muito do professor”, diz Hernán. “Ele alerta que a atitude desaparece quando não há recursos: “Não podemos nos sentir sozinhos; se a responsabilidade recai apenas sobre o docente, ele é esmagado e entra em burnout (condição emocional caracterizada por exaustão extrema, estresse e esgotamento físico)”.

Em outras palavras, quando um educador se sente incapaz, sem apoio da gestão e das famílias ou sem reconhecimento social ou financeiro, sua atitude em sala de aula é afetada. Por consequência, isso prejudica que a inclusão ocorra. 

“Quando a energia é negativa, se você não está contente, não se sente amado, automaticamente o corpo se retrai. A interação diminui, a atenção cai, a criatividade diminui. Lembre-se que, quando falamos de professores com atitude, estamos pensando especialmente na neurodiversidade da sala de aula”, disse.

Foco nos professores 

Embora a inclusão seja uma tarefa de toda a comunidade escolar, Hernán acredita que é necessário colocar os professores no centro das atenções para que ações de inclusão sejam efetivas. 

“Há muitos anos, a educação começou a colocar o aluno no centro. Descobriu-se que foi um grande erro. O aluno não sabe o que precisa, não sabe os conteúdos. Quem sabe é você, professor. A educação inclusiva precisa colocar você no centro, precisa cuidar de quem cuida”, destacou. 

Perceber como os educadores se sentem e criar um ambiente acolhedor é, para o especialista, vital para assegurar a inclusão. “As emoções positivas são indispensáveis, porque, se continuarmos nos sentindo mal, não vamos ter aquilo que é mais importante na inclusão: a capacidade de perceber do que o outro precisa”, reforçou. 

3 propostas para um professor com atitudes inclusivas

Hernán elencou ainda três elementos que, segundo ele, são fundamentais para que os professores mantenham sua atitude positiva e, com isso, desenvolvam uma prática pedagógica cada vez mais inclusiva. 

A primeira diz respeito à autoeficácia, ou seja, à habilidade de sentir-se capaz de resolver problemas e ser efetivo nessas ações. “Se você já entrar achando que não consegue, acabou. E muitos professores sentem isso. O que é compreensível, porque foram formados para ensinar conteúdos, não necessariamente para lidar com inclusão. Faltam ferramentas. Então, é bastante lógico que, às vezes, você sinta que não consegue”. 

Sentir-se capaz gera motivação que, por sua vez, mantém o que Hernán chama de “paixão viva”. 

A segunda dimensão é a resiliência, também importante em contextos escolares complexos e que necessitam de um olhar atento à inclusão. “Uma palavra bonita e em voga. Mas o que ela significa? Significa que você vai ter dias horríveis, em que sentirá que nada do que fez funcionou. Mas esse estado de sair da sala abatido, esgotado, não pode virar permanente. Ou seja, você precisa ser capaz de se reerguer e dizer: ‘Bom, isso não funcionou? Amanhã tento outra vez’”, exemplificou. 

Neste ponto, ele retomou a necessidade de equilíbrio, especialmente quando faltam recursos ou quando há um excesso de atribuições para os professores. 

O terceiro elemento apontado por ele é o sentimento de propósito. “Quando você tem um propósito, mesmo em um dia ruim, isso o sustenta. Mesmo que você não se sinta remunerado como gostaria ou valorizado pela sociedade como deveria, o propósito é o elemento mais forte para a motivação”, destacou. 

É preciso equilibrar 

Muitas questões do universo escolar não passam pelas mãos dos professores. Mesmo que eles desenvolvam autoeficácia, resiliência e estejam cientes de seus propósitos, Hernán avalia que uma pessoa pode se esgotar e adoecer quando as demandas superam os recursos. 

Ele destaca que, para que os docentes estejam com o bem-estar em dia, os recursos precisam ser mais abundantes que as necessidades de ação. Porém, em contextos de inclusão, muitas vezes acontece o contrário. 

“Você precisa que os gestores da sua escola te apoiem e te acompanhem — não só com recursos financeiros, mas também com profissionais que possam ajudar. Lembre-se: se o lugar onde você trabalha não te acompanha, se você não tem recursos e a demanda é alta, pode ter todo o talento do mundo e toda a atitude; mas essa atitude morre. Você se cansa, diz ‘chega’ e abandona tudo”, destacou.

Fonte: Porvir

Imagem: vetor pch by Freepik